O desabafo de um Motociclista

24 abr 2011 as 13:34

Sou motociclista desde 1976. Iniciei minha jornada com a histórica Honda CG 125cc ano 1976, que naquele ano chegou ao Brasil pela Zona Franca de Manaus. Com o passar dos anos tive outras motocicletas, 450cc, 750cc, 800cc, 900cc, 1100cc e, de dois anos para cá, venho pilotando uma Suzuki Boulevard 1500cc que certamente me acompanhará até que eu pendure minhas luvas e meu capacete. Hoje tenho 58 anos de idade.

Felizmente ou vitoriosamente, em meus 32 anos sobre duas rodas nunca me envolvi em qualquer acidente ou sofri alguma queda. Vejo na motocicleta uma parceira, uma aliada na minha locomoção pessoal e para viagens bastante agradáveis. Isto sem falar da infinidade de amigos conquistados ao longo deste tempo, um bônus inestimável que o uso freqüente da motocicleta proporciona.

Até aí minha história não traz nenhuma novidade nem representa qualquer vantagem ou mérito pessoal, já que é possível listar milhares de motociclistas, pessoas comuns como eu e com históricos pessoais bastantes semelhantes. O que me trouxe ao computador para escrever foram as últimas novidades impostas a nós, os motociclistas, e todas as demais implicações que virão após estas brilhantes decisões das nossas autoridades de trânsito.

Em princípio, hoje sou considerado um motociclista comum ou “motoqueiro”, como se costuma dizer popularmente. Aquele mesmo motoqueiro que, premido pelas circunstâncias da vida, se vê cobrado pelo tempo e a necessidade de ganhar o seu pão de cada dia mas que, de maneira absolutamente irresponsável, acaba por cometer diariamente uma infinidade de infrações de trânsito, arriscando a própria vida e a de outras pessoas.

Não quero aqui generalizar. Só na cidade de São Paulo são duas ou três vidas que se perdem a cada dia com acidentes envolvendo motoqueiros. Muitos desses motoqueiros, se valendo da certeza da impunidade e da incapacidade das autoridades policiais de trânsito, circulam com motocicletas absolutamente irregulares, muitas delas sem condições mecânicas, sem documentos regularizados. Isso pra não dizer quantos circulam diariamente sem possuir sequer a habilitação para conduzir motociclos. Recentemente, a “Rádio Bandeirantes” divulgou uma reportagem denunciando que com “trezentinhos” era possível obter uma CNH para motociclista no Detran em São Paulo. Corram.

Uma outra qualidade que se atribui hoje em dia à motocicleta é que ela se presta a servir aos assaltantes, sendo um veículo ágil, rápido e que possibilita a fuga no momento necessário, imediatamente após uma ação. Muitos assaltantes não precisam de motocicleta. Para alguns, no entanto, é reservada a chance de encontrar pela frente um promotor de Justiça que, seja por um lamentável equívoco ou não, decidiu optar pelo rito sumário e obviamente sob a égide da legítima defesa pessoal abortou com uns oito ou nove tiros certeiros uma suposta tentativa de assalto. Já se sabe que um promotor de Justiça no Brasil tem o direito de andar armado.

Certamente o Ministério Público trará a público a verdadeira versão dos fatos e punirá exemplarmente os responsáveis, como aconteceu com aquele impávido jovem promotor de Justiça que na riviera de São Lourenço acabou com a vida de outro jovem, filho de boa família e atleta que praticava basquete. Não esqueçamos também do promotor Igor, que em Serra Negra assassinou a própria esposa grávida, mas que algum dia cairá novamente nas mãos do mesmo Ministério Público e seu implacável senso de justiça! Corporativismo? Nem pensar.

Mas voltando ao meu desabafo, afirmo que não me preocupa tanto o assaltante tradicional ou informal que deseja a minha motocicleta, o meu veículo ou meu cartão bancário. Já estou acostumado a me precaver, embora não tenha tido sucesso em oportunidades passadas. Tais eventos ou assaltos já são banais em nosso meio. Alguns amigos meus, felizmente vivos, já ficaram sem suas motocicletas e seus automóveis. Também já me acostumei a estas notícias.

O que me preocupa são os assaltantes legalmente estabelecidos em seus gabinetes de trabalho que se escondem ou se intitulam autoridades nos órgãos governamentais de trânsito e decidem que os capacetes de uso diário, sob sol ou chuva, deverão ostentar um selo adesivo de autenticidade do InMetro atestando sua validade e procedência, além de algumas faixas refletivas nas suas laterais. Esses assaltantes roubam a nossa tranqüilidade e a nossa paciência.

Esses tecnocratas não sabem ou não fazem a menor idéia o que é ter ou pilotar uma motocicleta diariamente e cuidar dos seus acessórios ou equipamentos de segurança pessoal. Em breve seremos forçados a comprar as botas, luvas ou jaquetas também credenciadas por eles.

Preocupam-me também aqueles outros assaltantes formais, instalados em seus gabinetes legislativos e executivos, travestidos de autoridades governamentais, que em tempos de inflação inferior a 5% ao ano decidem estabelecer um reajuste superior a 44% no valor do premio do seguro obrigatório anual das motocicletas, fixado agora em R$ 254,16, quando o valor médio do seguro para automóveis está por volta de R$ 85.

Alguém já experimentou percorrer as trilhas da burocracia e superar os obstáculos impostos pela Fenaseg e suas protegidas ou privilegiadas companhias de seguro para tentar receber a indenização do seguro obrigatório em virtude de algum acidente de trânsito com vítimas? Você conhece alguém que tenha recebido integralmente a prometida indenização sem antes ter deixado uma parcela de 20%, 30% ou 40% a algum advogado ou despachante matreiro que “conhece os tais caminhos” para receber a indenização? Alguém já parou para calcular a verdadeira fortuna que a cada ano é recolhida aos cofres das companhias de seguro pelo valor que corresponde a cada veículo ou motocicleta pagante? Os tais cartórios.

Não podemos nos descuidar. No próximo dia 9 de janeiro já vencem as primeiras parcelas do IPVA e demais encargos anuais de veículos e motocicletas. Vamos correr aos bancos como sempre o fazemos.

Em 32 anos de pilotagem eu sempre usei luvas, botas, jaqueta de couro. Possuo um excelente capacete adquirido recentemente no exterior e aprovado em qualquer país desenvolvido do mundo, mas que se não se enquadra nas normas impostas pelos nossos tecnocratas brasileiros e não posso sair com ele pelas seguras e excelentes ruas e avenidas de São Paulo! Eu serei multado. Amigos motoqueiros, alguém pode me indicar onde eu poderei adquirir o tal selinho do InMetro a preço bem interessante? Ora bolas, competentes senhores dirigentes do Contran, Denatran, Detran e demais órgãos: vão pentear macacos!

 

 Publicado no dia 16/01/2008 no seguinte link:

http://oglobo.globo.com/opiniao/mat/2008/01/16/o_desabafo_de_um_motociclista-328046354.asp

Mario Sergio G. Leite 16/01/2008

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